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Há poesia no Limoeiro?

Há poesia no Limoeiro?

De residência real no reinado de D. Afonso III o edifício hoje conhecido por albergar o Centro de Estudos Judiciários guarda na sua história um período em que, em finais do século XV, o Paço do Limoeiro – assim chamado por alusão a uma árvore que aí existia –, passa a funcionar como cadeia no piso inferior e tribunais nos pisos superiores.

No terramoto de 1755, para além da fuga coletiva dos detidos, o edifício ficou muito danificado.

Reconstruído anos depois, já sem os tribunais, o “Limoeiro” torna-se exclusivamente cadeia. Mal-afamada pelas condições desumanas em que os presos se amontoavam sem qualquer distinção do tipo de crimes ou idades, preventivos e condenados todos juntos. A verdadeira ‘escola do crime’ que envergonhava Lisboa aos olhos dos estrangeiros.

Páteo das Oficinas – Apesar do trabalho ser um dos pilares do sistema penitenciário do século XIX, perfeitamente regulado, como na Penitenciária de Lisboa, nas cadeias civis a organização do trabalho era difícil, até porque a falta de espaço e de condições sempre frustrou as tentativas de o regulamentar. No Limoeiro trabalhavam alguns presos, por conta de outros presos, que lhes forneciam matérias-primas, constituindo um negócio dentro da cadeia. Desenho de J. R. Christino, in O Ocidente, n.º 274, 1886 – Hemeroteca Municipal de Lisboa

Um local sem qualquer consideração pela dignidade humana e, citando Oliveira Martins (in Portugal Contemporâneo), no Limoeiro “os homens eram amontoados, empurrados a pau para a sociedade dos assassinos, nessas salas imundas, habitação de misérias informais. Davam-lhes sovas de cacete miguelista, e por dia um quarto de pão e caldo, onde flutuava, raro, alguma erva.”

 

 

Então e o que tem o CEJ a ver com o Bocage?      

O CEJ, ainda hoje conhecido como “O Limoeiro”, não foi só escola de aprendizagem das técnicas de ladroagem e criminosos comuns, foi também local de passagem de inúmeros liberais e artistas entre os quais o pintor Domingos Sequeira (1808), os escritores Almeida Garrett (1827) e Luiz Pacheco (1947, 1959, 1968), os poetas Correia Garção (1771) e Barbosa du Bocage (1797).
Bocage, o Poeta da Liberdade (1765-1805) vive numa época de crise evidente, de economia frágil, de amplas e radicais reformas levadas a cabo pelo Marquês de Pombal.

É de França que vêm os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que até aqui se sentiam e discutiam com fervor nos cafés. Criticava-se abertamente o poder e a situação política nacional, comentavam-se os livros revolucionários dos filósofos franceses iluministas que chegavam à capital. Diderot, Voltaire, Rosseau, eram proibidos e denunciados todos os que os defendessem.

A Casa Forte – Excessivamente frio e húmido, este espaço servia para castigar e disciplinar os presos que cometessem faltas graves na cadeia do Limoeiro. Desenho de J. R. Christino, in O Ocidente, n.º 275, 1886 – Hemeroteca Municipal de Lisboa

Conta-se que também no ‘Café Nicola’ terá Bocage sido a voz escrita das duras críticas aos problemas nacionais da época, entre eles a ausência dos direitos humanos elementares que frontalmente denunciava.

Em 1790, Bocage regressa a Portugal trazendo na bagagem culturas tão distantes como a brasileira, a moçambicana, a indiana, a chinesa e a macaense e gritava para quem quisesse ouvir os ideais da revolução que se vivia em França. A sua irreverência, emotividade, frontalidade e ironia em criticar duramente o estado social, político e cultural de Lisboa na altura são o que o leva a ser admirado por uns e considerado “desordenado nos costumes” pelo Intendente da Polícia Pina Manique que dominava Lisboa e que, em 7 de Agosto de 1797, deu ordem de prisão a Bocage.

Fica preso no Limoeiro até 14 de Novembro do mesmo ano para, logo de seguida, dar entrada nos calabouços da Inquisição, no Rossio, onde ficaria até 17 de Fevereiro de 1798. Tem uma breve passagem pelo Convento dos Beneditinos para depois dar entrada no Real Hospício das Necessidades. Durante este alargado período de detenção Bocage trabalha como redator e tradutor, de poetas franceses e latinos deixando, aparentemente, de lado as suas impetuosas críticas ao sistema, à privação de liberdade, os versos eróticos que o caracterizaram como poeta livre no pensamento e no comportamento, boémio e com uma vida cheia de aventuras. Já sem liberdade e invadido pela tristeza, o poeta escreve:

“para a casa dos assentos

Caminho com pés forçados

Alli meu nome se ajunta

A mil outros desgraçados

Para o volume odioso

Lançando os olhos a medo

Vejo por – Manuel Maria,

E logo à margem – segredo”

«Liberdade, onde estás? Quem te demora?» Poemas escritos enquanto esteve preso no Limoeiro e que lhe valeu, entre outros, o epíteto de Poeta da Liberdade.

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não Caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo que desmaia.
Oh! Venha… Oh! Venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal, que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!”

Manuel Maria Barbosa du Bocage in Ilustração Portugueza, n.º 111 (18 de dezembro 1905), p.939 Hemeroteca Municipal de Lisboa

Manuel Maria Barbosa du Bocage in Ilustração Portugueza, n.º 111 (18 de dezembro 1905), p.939 – Hemeroteca Municipal de Lisboa

Bocage foi perseguido durante toda a sua vida pela censura, viu muitos dos seus versos cortados, outros ostensivamente modificados, e alguns que apenas viriam a ser conhecidos já após a sua morte.

No dia 31 de dezembro de 1798 sai em liberdade.

A história é rica em pormenores mas, cingindo-nos ao nosso poeta e à sua ligação com o CEJ, dizemos apenas que em 1974 foi determinado o encerramento definitivo da cadeia e em 1979 o Limoeiro passa então a ter a nobre missão de formar magistrados como Centro de Estudos Judiciários e é hoje referência positiva além-fronteiras.

Passe por lá um dia só para espreitar se ainda lá está o limoeiro.